
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli
Eu não sei na verdade quem eu sou,
É sempre muito bom dar uma caminhada, num final de tarde com o vento soprando pra levar a tristeza ou sei lá o quê ruim pra bem longe daqui. Assim o fiz. E caminhando, dei numa praça. Até então, na minha cabeça, praça em dia de domingo a tarde era reduto de velhinhos, sentadinhos, dando milho aos pombos e falando do tempo em que eram jovens e iam "flertar " com as jovens senhoritas, atrás da Coluna da Hora.
Decidi sentar num banco pra ver o que ia acontecer, torcendo pra algum velhinho fofinho sentar lá perto e puxar uma conversinha animada! Adoro as histórias que essas pessoas sempre têm pra contar. Mas, nenhum deles apareceu (ué! o que danado os velhinhos fofinhos tanto faziam num domingo a tarde, que não estavam lá na praça?)...
Logo me entreti com outra coisa: umas crianças, descalças, cambalhoteavam na grama, numa felicidade sem fim! As gargalhadas corriam frouxas, as cambalhotas viraram pega-pega, que virou esconde-esconde, que virou futebol de chinelo, que virou cambalhota outra vez. Me peguei querendo ser um daqueles meninos, despreocupados, felizes, cuja maior preocupação devia ser qual seria a brincadeira da vez...
Num suspiro, olhei pra outro lado e vi duas moças enamoradas, conversando, sorrindo, segurando a mão... nem aí pro que podiam achar, pensar, falar. Naquele instante o que tava valendo pra elas era o sentimento e era algo bonito de se ver. Logo mais à frente tinha um outro casal, um rapaz que, entre um beijo e outro, também sorria feliz para sua amada e conversavam amenidades, e afagava seu cabelo, e se abraçavam contentes, nem aí pro resto da humanidade. Confesso que deu saudade, queria ser eu a estar ali abraçando, segurando a mão, trocando olhares, sorrisos e juras de amor...
Aí sim, vi os velhinhos que acabavam de chegar e já começaram logo um jogo de dominó. Percebi então que as histórias que eles porventura me contariam ia ter que ficar pra outra vez, pois aquele jogo prometia e as apostas de amendoim já estavam sendo feitas! Ai de mim se atrapalhasse, afinal, uma partida de dominó, num domingo à tardinha na praça era mais sério do que um FlaxFlu, meu bem! Aí eu quis ser um velhinho daqueles, com amigos de uma vida, cheio de histórias pra contar e com muitas partidinhas de dominó pela frente...
Levantei pra dar uma voltinha e parei perto da fonte. Fiquei imaginando quanta coisa a fonte já presenciara ali. Quantas moedas jogadas em troca de um desejo, quantas juras de amor feitas ali e quantas lágrimas misturadas Às suas águas por conta de um coração partido. Quis ser aquela fonte, tão companheira, tão cúmplice, tão guardadora de segredos...
Outro suspiro. Mãos nos bolsos. Passos despreocupados. Foi assim que voltei pra casa. Meio desolada por não ser a criança, nem a namorada, tampouco o velhinho e muito menos a fonte. Tive que ser eu mesma. Mas retornei até contente, percebi que a praça, num domingo à tardinha, além de velhinhos, também é lugar de crianças, namoradas, namorados, fonte e de uma boa história pra contar!
É incrível como Deus nos dá presentes maravilhosos, assim, do nada! Basta termos olhos pra enxergar. Outro dia, bem de tardezinha, eu enxerguei! Foi assim..
Vinha com minha tia de um buffet que fica na serra (fomos pegar um orçamento pra fazermos a festa de aniversário de cem anos da vovó) e, na volta, caiu aquele temporal. Bom, na verdade foi uma chuvinha ralinha, dessas de refrescar o rosto em dia de calor, mas que depois foi aumentando até virar o pé d'água que virou! Praticamente impossível enxergar alguma coisa e, com o senso maravilhoso de direção (pra não dizer o contrário) que eu tenho, acabamos perdidas!
Ah, mas eu não ia apavorar a outra e, totalmente dona da situação, falei: -Calmaí tia, que descobri esse atalho (atalho? ¬¬'' sei, sei) e jajá a gente chega! - então fui me embrenhando serra adentro, cada vez mais perdida, cada vez mais chovendo e as curvas cada vez mais sinuosas. O sol já estava acabando de dar seu último adeusinho (tá, não tinha sol, mas se tivesse, ele estaria dando seu último adeusinho, hunf!) e o desespero já havia se apoderado por completo de minha pessoa. Minha tia? Ah, pelo pânico em seu rosto, essa já tinha compreendido com todas as letras que o tal atalho tinha sido a conversa mais fiada que eu já tivera com ela desde toda minha existência.
O pior é que não tinha viva alma pra perguntarmos qual caminho devíamos percorrer, então, já que estávamos perdidas mesmo, o jeito era parar no acostamento, esperar a chuva passar e aparecer um caridoso que pudesse nos salvar! Assim fizemos... a chuva pareceu durar uma eternidade, principalmente por causa da titia que se benzia a cada dois minutos e dizia "-Chagas abertas, coração ferido"! Mas, como tudo que vem, vai, foi estiando, estiando, até que ficaram só a garoa e aí, lá vem o presente!
Quando girei a chave pra ligar o carro e olhei do lado vi aquele coloridíssimo arco-íris, inteirinho, ali só pra nós! a coisa mais linda do mundo! Fazia muito tempo que eu não via uma assim, inteirinho (geralmente via pedacinhos de arco-íris, mas um assim, completinho, todinho pra mim, nem lembro...) e aquela cruvatura colorida fez eu voltar no tempo de menina, que corria de pé descalço no meio da rua, brincando de pula-corda e amarelinha, cabelo solto pro vento brincar e a cabeça cheia de sonhos!
Lembrei também do tempo que, lá no sítio da vovó, uma vez caminhei horrores, procurando o fim do arco-íris, pois junto com ele acharia um pote cheinho de moedas de chocolate e voltaria a menina mais rica do universo inteirinho (sim, porque no meu juízo, ficar rica, rica mesmo, só se as moedas fossem de chocolate, se fosse de 'dinheiro de verdade mesmo' que graça ia ter?), lembrei do Mágico de Oz (eu queria ser a Dorothy só pra cantar "Além do arco-íris, há um lugar"...), fui lembrando, lembrando... Até que, como Dorothy, fui ouvindo aquela voz looonge, loooonge, me chamando, até que a voz criou mãos sacolejantes e me trouxe pro mundo real!
Liguei de vez o carro, achamos a viv'alma que nos mstrou por onde ir, olhei pra tia com cara de: "Eu sabia que era por aqui!", dei mais uma boa espiadela no MEU arco-íris e, contente, ainda menina de pé descalço, ainda Dorothy, retornei. Retornamos.
Pensamentino de Cabeceira:
Mas depois do cinza-chumbo-pesado-desabante, sobre minha cabeça fez-se o sol! sol- amarelante-radiante-aquecente-remanescente-arco-írismente-simplesmente um sol!
(Esse devaneio aí é meu mesmo, rs)
E fiquei ali, parada, sacolas largadas, nem aí para as coca-colinhas que já estavam indo parar do outro lado da rua, sorvendo a magia daquele momento, o pensamento a mil por hora, tentando imaginar quem seria a musa (ou muso, quem sabe) inspiradora daquele tocador de flauta que, além das notas musicais, extraía de seu instrumento uma saraivada de sensações vividas e por viver. E a moça? Aquela melodia pegava em suas mãos e a levava mais precisamente para que lugar? De quem ou do que ela lembrava naquele instante? Que cor, que gosto, que cheiro teriam os pensamentos daqueles dois personagens solitários, naquela tarde de sábado? O que os tornava tão solitários assim?
Foi então que, como num estalo, percebi-me também sozinha, três almas desconhecidas e separadas, mas ao mesmo tempo unidas pelas notas musicais que estouravam em nossos rostos e ouvidos, tais como bolas de sabão, daquelas sopradas pelo canudinho...
Respirei fundo, juntei as sacolas que ainda me restavam e segui meu caminho... jamais tornei a ver o flautista, muito menos a moça da escadaria, mas a música, ah, a música... essa sim, carreguei comigo e guardo até hoje, basta fechar os olhos e sentir...
Pensamentinho de Cabeceira:
Isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
(Paulo Leminski - gosto tanto dele...)
Frágil? Isso porque você não sabe a luta que foi pra ela sair daquele casulo sufocante! Crescer ali naquele apertado, suas asinhas 'frágeis' e fininhas se comprimindo... e a corajosa borboleta luta, encara seus medos, rompe as amarras... "Isso, só mais um pouquinho, falta mais um pouco, rasga aqui, rompe ali! Consegui! Saiu uma asinha... Ufa! Ufa! A outra! Saí!!!" Acho que esses devem ser os pensamentos das borboletas na hora que estão ali digladiando com aquele invólucro, a princípio tão aconchegante e acolhedor, mas, agora, tão opressor...
E depois de tudo isso vêm as outras lutas: e voa de flor em flor atrás de alimento, e pratica defesa pessoal, e interage com outras borboletas... É, meu bem, vida de borboleta não é fácil não, viu?
Isso, porque eu nem vou mencionar a teoria do caos, onde um simples bater asas de borboleta pode ocasionar furacões arrebatadores!!! É mole?
Então, pra mim, a borboleta tem esses dois lados: o da graciosidade colorida, mas também o da altivez libertária!
Hummmm... se as borboletas podem, por que não eu?
Pensamentinho de Cabeceira:
"O que a lagarta chama de fim do mundo, o homem chama de borboleta".
(Richard Bach - aaaaaaamo essa frase!!!)
Esse texto da Clarice é mesmo muito lindo, né? A gente sempre aprende tanto com ela... Me fez lembrar agora o filme "Sob o Sol da Toscana", alguém já viu? Dentre tantos trechos lindos que ele tem, um dos que mais me tocaram foi quando uma moça lá disse que sempre esperou pelas joaninhas no jardim, mas elas nunca vinham. Daí, num certo dia, de tanto esperar, ela acabou adormecendo por lá e, quando se deu conta, as joaninhas estavam lá!
Muitas vezes a gente quer tanto determinada coisa, e quer ali, naquela hora, e bate o pé, e chora e faz birra quando a coisa não chega. O que a gente não compreende (e eu me incluo, aliás, me coloco no top list) é que só os distraídos conseguem! A ansiedade em demasia é um mal terrível e euzinha aqui preciso, urgentemente, começar a trabalhar a minha! Sou ansiosa ao extremo, quero tudo pra ontem, detesto esperar, mesmo sabendo que tudo tem sua hora certa de acontecer, quero que a minha hora seja sempre agora, rsrsrs!
Mas a vida (e as pessoas que estão pertinho de mim) estão se encarregando de me ensinar. Com cara de: "Não é bem assim, mocinha! Nem tudo acontece do jeito e na hora que você quer!", a dona vida, uma senhora muito bondosa e ao mesmo tempo exigente, vai me botando nos eixos, através de certas peças que me prega! E devagarinho eu vou aprendendo!
Tenho mais é que aprender a viver um dia de cada vez, devagarinho, saboreado cada instante, como se saboreia fruta madura, dessas que a gente arranca do pé! Tenho que me desligar mais do passado e parar de querer dar conta do futuro que, se for parar pra pensar, o futuro é agora, e agora, e agora, e agora, e agor...
Pensamentinho de Cabeceira:
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada."
(Clarice, sempre Clarice)
Se tem uma coisa que me tira completamente do sério, é ver injustiça. Tenha ela a proporção que tiver e seja cometida contra quem for. Desde as balinhas dadas como troco na padaria (será que eles aceitariam que eu pagasse o pão em balas também?), até a roubalheira que fazem com o dinheiro público; dinheiro pago, através de impostos, com o sacrifício daqueles que trabalham de verdade, que fazem hora extra pra poder comprar o leite além do pão, daqueles que lotam as enfermarias dos hospitais, dos que correm apressados para não perder a condução, dos pontos batidos todos os dias...
Fico p... quando vejo crianças e idosos sendo desrespeitados ( e nem é só nas filas dos bancos e hospitais, mas dentro de casa e pela própria família). E os primeiros que deveriam ler (e praticar) o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso eram os senhores governantes.
Vejo por aí muitas pessoas-lagartas ainda arrastando-se pelo chão, com uma visão rasteira do mundo e das coisas que os cercam... vejo pseudo-borboletas, voando raso, acreditando que sabem de tudo e que já contribuíram com sua parcela, fingindo desperceber que muito ainda há pra se fazer!
Urge que apareçam mais pessoas-borboletas, que, após terem lutado para se libertar do casulo, batam suas asas e voem longe, que tenham uma visão global do viver e que trabalhem para que as distâncias que separam os marginais sejam cada vez mais dirimidas!
Pensamentinho de Cabeceira:
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
(Ferreira Gullar)Pensamentinho de Cabeceira:
"E até lá, vamos viver
temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora.
Apenas começamos".
(Legião Urbana)