Borboleteando...

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A vontade impulsiva de escrever e depois de ver tantos blogs interessantes me levou a criar um também... como borboleta, vou borboleteando por aí, sem saber onde isso vai dar nem onde irei parar... Bons vôos... εïз~*~

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terça-feira, 10 de junho de 2008

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector

Esse texto da Clarice é mesmo muito lindo, né? A gente sempre aprende tanto com ela... Me fez lembrar agora o filme "Sob o Sol da Toscana", alguém já viu? Dentre tantos trechos lindos que ele tem, um dos que mais me tocaram foi quando uma moça lá disse que sempre esperou pelas joaninhas no jardim, mas elas nunca vinham. Daí, num certo dia, de tanto esperar, ela acabou adormecendo por lá e, quando se deu conta, as joaninhas estavam lá!

Muitas vezes a gente quer tanto determinada coisa, e quer ali, naquela hora, e bate o pé, e chora e faz birra quando a coisa não chega. O que a gente não compreende (e eu me incluo, aliás, me coloco no top list) é que só os distraídos conseguem! A ansiedade em demasia é um mal terrível e euzinha aqui preciso, urgentemente, começar a trabalhar a minha! Sou ansiosa ao extremo, quero tudo pra ontem, detesto esperar, mesmo sabendo que tudo tem sua hora certa de acontecer, quero que a minha hora seja sempre agora, rsrsrs!

Mas a vida (e as pessoas que estão pertinho de mim) estão se encarregando de me ensinar. Com cara de: "Não é bem assim, mocinha! Nem tudo acontece do jeito e na hora que você quer!", a dona vida, uma senhora muito bondosa e ao mesmo tempo exigente, vai me botando nos eixos, através de certas peças que me prega! E devagarinho eu vou aprendendo!

Tenho mais é que aprender a viver um dia de cada vez, devagarinho, saboreado cada instante, como se saboreia fruta madura, dessas que a gente arranca do pé! Tenho que me desligar mais do passado e parar de querer dar conta do futuro que, se for parar pra pensar, o futuro é agora, e agora, e agora, e agora, e agor...

Pensamentinho de Cabeceira:

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada."

(Clarice, sempre Clarice)