Borboleteando...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A vontade impulsiva de escrever e depois de ver tantos blogs interessantes me levou a criar um também... como borboleta, vou borboleteando por aí, sem saber onde isso vai dar nem onde irei parar... Bons vôos... εïз~*~

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

domingo, 11 de novembro de 2012

No País das Maravilhas...


Semana passada, na faculdade, meu grupo e eu apresentamos uma análise psicanalítica da vida e obra de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas e foi muito intenso mergulhar na vida dele, conhecer nuances que não são mostradas com tanta frequência, compreender que muitas neuroses dele também são minhas... Registro aqui esta foto de "Chapeleira Maluca" e, fazendo minhas as palavras de Carrol em seu diário, digo: "Este foi um dia pára não esquecer".
Deixo abaixo o texto do Paulo Mendes Campos, tão inspirador:

Para Maria da Graça(Paulo Mendes Campos)

         Quando ela chegou à idade avançada de 15 anos e eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.
         Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
         Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
         Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
         Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
         A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato; experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?”.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde queres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo aos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago,  pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

Texto extraído do livro “O Colunista do Morro”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 23



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Feliz Ano Novo pra MIM

Felicidade
(Marcelo Jeneci)

Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz.

Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz.
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais.

Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.

Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
Dançar na chuva quando a chuva vem.

Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar.

Nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.


Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.

Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
/Dançar na chuva quando a chuva vem.
 
Há um ano atrás eu estava em Fortaleza, longe de casa, tensa, ansiosa pois no dia seguinte iria me internar para o tratamento da Radioiodoterapia... 
Graças a Energia Superior, hoje, um ano depois, pude comemorar o dia de meus anos em casa, com o coração agradecido, pronto pra admirar o arco-iris e receber o sol que, como cantou lindamente o Jeneci, brilhou pra mim neste dia!
Obrigada, obrigada, obrigada... minha alma hoje só sabe agradecer...
 
Pensamentinho de Cabeceira:
"Se por acaso morrer do coração
É sinal que amei demais
Mas enquanto estou viva e cheia de graça
Talvez ainda faça um monte de gente feliz"
(Rita Lee(nda) rs!)
 
 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ponto final de interrogação

O Gosto do Azedo
(Rita Lee)

Para o sangue, sou o veneno
Eu mato, eu como, eu dreno
Para o resto da vida, sou extremo
Sou o gosto do azedo
A explosão de um torpedo
Contaminação do medo
Eu guardo o seu segredo
Sou o HIV que você não vê
Você não me vê
Mas eu vejo você
Sou a ponta da agulha
Tanto bato até que você fura
É a minha a sua captura
Sou dupla persona
Seu estado de coma
Sou o caos, sou a zona
Seu nocaute na lona
Sou o HIV que você não vê
Você não me vê
Mas eu vejo você
Eu sou o livre-arbítrio
Sem causa com efeito
Sua força é meu grande defeito
Sou a dor da tortura
Uma nova ditadura
Terminal da loucura
Sou o vírus sem cura
Sou o HIV que você não vê
Você não me vê
Mas eu vejo você

Sinto. Ouço. Calo. Penso. Convido. Me acanho. Me acato. Me recato. No ato.
O brilho. O olho. A sede. A boca. O pé. Do ouvido. Um cisco. No olho. A cor.
A cor. O A Cor do. Olho. Duvido. Vejo. Sinto. Ouço. Calo.
Penso. Despenso. Dispenso. Retraio. Convido. Com Ouvido. Com ovido. Revido.
Um dia. Quem sabe. Esc olho. O olho. O beijo. A carne. Arde.
Sinto. Ouço. Calo. Falo?

Pensamentinho de Cabeceira:
"Sou nova demais pra velhos comícios
Sou velha demais pra novos vícios"
(Rita Lee - Nunca fui Santa) 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Convite!

A Coletânea Cordelirando, da cordelista Salete Maria, já tem data, hora e local certinhos para ser lançada!
Se você mora em Salvador, fica a dica de um programaço, com a presença da Cordelista Salete Maria e tudo mais!

Se você não mora em Salvador mas, assim como eu, quer demais a bolsinha linda decorada com fuxico e os nove cordéis de Salete, entra em contato comigo aqui pelo blog ou me manda um email: sammyra_santana@hotmail.com e coloque no assunto: Cordelirando. 
Aí conversaremos sobre a forma de pagamento (tá baratinho, gente, vinte reais) e, se quiser, ainda dou um jeito de ir autografado! rsrs



Alô você que mora em Salvador!

Neste sábado dia 17, às 13h, na loja de discos 
Pérola Negra, no bairro do Canela, acontece o lançamento 
da coletânea Cordelirando: mulher também faz cordel, 
da cordelista Salete Maria da Silva. 

A compilação Cordelirando: mulher também faz cordel 
contém nove folhetos da cordelista, 
DVD com um dos títulos musicado e um 
ensaio sobre a literatura de cordel no Brasil. 

Outro destaque, volta-se para o encarte: 
uma bolsinha de tecido decorada com fuxicos e 
serigrafia que materializa o fazer artesanal 
que tão bem caracteriza a criatividade nordestina

Neste dia, a cordelista Salete Maria irá recitar
alguns cordéis que versam por temas como
religiosidade popular, sexualidades, violência
e atuação política das minorias representadas no país.

O valor da bolsinha com DVD custa R$ 20,00. 

Vamos celebrar a cultura regional, minha gente!!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

E?

À Palo Seco
(Belchior)

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:
2x (bis)
- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.
(2x)


E essa inconstância da vida, da alma, das vontades, dos sentidos, do sentir?
E esse emaranhado de sonhos, desejos, inspirações e aspirações?
E esse tudo querer e nada ter? E esse tudo ter e nada querer?
E essa vida bandida que nos assalta e leva embora os nossos tesouros?
E essa vida querida que nos aproxima dos nosso amores?
E esse feijão com arroz de todo dia? 
E o tempero novo que dá mais sabor ao prato de quem come?
E os anseios?
E as perspectivas?
E o novo?
E o que virá?
O que virá...
Virá!

Pensamentinho de Cabeceira:
"O verdadeiro amor não é fácil.
Mas quando você o encontra, deve lutar por ele 
pois o verdadeiro amor não pode ser substituído"... 
(Once Upon a Time)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Salve, Chico

Partido Alto
(Chico Buarque)

Diz que deu, diz que Deus,
Diz que Deus dará,
Não vou duvidar,ô nega
E se Deus não dá,
Como é que vai ficar, ô nega?

Diz que deu, diz que dá,
E se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega,
Deus dará, deus dará (2x)

Deus é um cara gozador,
Adora brincadeira
Pois prá me jogar no mundo,
Tinha o mundo inteiro

Mas achou muito engraçado
Me botar cabreiro
Na barriga da miséria
Nasci brasileiro

Eu sou do Rio de Janeiro
Diz que Deus dará,
Não vou duvidar,ô nega
E se Deus não dá,
Como é que vai ficar, ô nega?

Diz que deu, diz que dá,
E se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega,
Deus dará, Deus dará

Deus me fez um cara fraco,
Desdentado e feio
Pele e osso simplesmente,
Quase sem recheio

Mas se alguém me desafia
E bota a mãe no meio
Dou pernada a três por quatro
E nem me despenteio

Que eu já tô de saco cheio
Refrão (1x)
Deus me deu mão de veludo
Prá fazer carícia
Deus me deu muita saudade
E muita preguiça

Deus me deu perna cumprida
E muita malícia
Prá correr atrás de bola
E fugir da polícia

Um dia ainda sou notícia
Refrão
Jesus cristo ainda me paga,
Um dia ainda me explica
Como é que pôs no mundo
Essa pouca titica

Vou correr o mundo afora,
Dar uma canjica
Que prá ver se alguém me embala
Ao ronco da cuíca

E aquele abraço prá quem fica

Tem gente que diz que Chico Buarque é excelente compositor, mas péssimo cantor, que não transmite emoção ao cantar... eu discordo!
Chico tem uma despretensão pretensiosa na sua voz mansa, uma profundidade no seu olhar e uma simplicidade sem tamanho que as palavras, a melodia, não precisam de esforço pra sair de seus lábios, elas simplesmente vão escapando, assim como quem vai à feira, e entrando dentro da gente, se misturando com nossa história, com nosso momento.
O mais interessante nisso é que, suas palavras emprestadas a outras vozes, de fato, adquirem nova conotação, novos timbres, que mexem e remexem a gente por dentro, se misturando, assim como o leite vai "amarronzando" quando mergulha numa xícara de café.
Chico é o café, a essencia, o mote... é parte de cada um de nós porque sempre cantou e encantou a vida.
Salve, Chico Buarque! 

Pensamentinho de Cabeceira:
 "Não me leve a mal, me leve apenas para passear por ai..." 
(Chico Buarque)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Nova prosa da Menina e do Coração


Olha
(Chicas)

Olha a luz que vem de lá
Veja a chuva já passou
Espera que a vida vai melhorar
Reza pra Deus Nosso Senhor

Jura que vai me esperar
Volta, vamos recomeçar
Planta amor que amor vai dar
Viva a vida, vida...

Roda nesse mundo carrossel
Brinca solta pipa olha pro céu
Muda de lugar pra ver além
Chama o irmão pra vir também

Grita, que é pra todo mundo ouvir
Ouve, eu não vou mais repetir
Toca a canção da esperança
Avisa, vou voltar a ser criança

Pega a estrela que caiu
Leva onde haja a escuridão
Pede pra miséria acabar
Vamos todos repartir o pão

Luta pelo seu ideal
Força, vai adiante até o final
Voa pra sua liberdade
Canta que a vida é boa.....
A vida é boa....



E a menina levantou da última queda, os joelhos meio sujinhos de terra - Não! Terra não! A terra tinha virado lama por causa das lágrimas que vertera amedrontada - percebe algumas raladuras e compreende enfim o porquê de arder tanto...

Desamarrota o vestidinho, passa as mãos também meio sujinhas, pelo cabelo, tirando da frente dos olhos para poder enxergar melhor à sua volta. E, enxergando melhor, nota enfim que aquelas feridas já viraram cicatrizes. Conta-as: uma, duas, três, quatro, cinco! Cada queda, uma cicatriz. Cada cicatriz, uma história. Cada história, um aprendizado.

Agora, olhando para a frente, vê que cresceu alguns centímetros pois consegue enxergar a vida de um outro ângulo... Seria por ter crescido? Ou por ter tirado o cabelo da frente dos olhos? confusa, coça a cabeça e contempla um pouco o horizonte... Observa detalhes que sempre estavam lá, mas que nunca os tinha percebido. Por conta disto, leva a mão esquerda à boca entreaberta num espanto e ralha consigo mesma: como posso não ter visto se estava bem diante do meu nariz?

Meditando um pouco sobre os últimos acontecimentos, se pergunta como foi que conseguiu passar por tudo e sair apenas com alguns - pequenos - arranhões. Sente-se mais forte, mais crescida, mais segura de si, mas sente também que existe algo mais. Sozinha ela não teria conseguido, ou até tivesse, mas, com certeza, estaria bem mais machucada e talvez algumas cicatrizes ainda permanecessem abertas!

Num gesto de questionamento, ela estende os dois braços, com as palmas das mãos viradas para cima e, enfim, sente algo tocando sua mão esquerda - sim, a mão que ela escreve, a mão do lado do coração - como se este algo abraçasse sua mão. 

Olha pro lado e seu sorriso se abre largo... a segurar sua mão estava a mão do Coração! Semicerrando os olhinhos, a menina enfim desvenda o mistério, com ar travesso: tudo fora mais fácil, as feridas cicatrizaram, só ficaram pequenos arranhões, que nem tavam mais doendo - porque o Coração esteve sempre lá: segurando, amparando, acarinhando, levantando, de um jeito meio silencioso, emanando uma energia tão pura, tão forte, tão bonita, que não tinha como não curar qualquer ferida que fosse.

Cientes de que não estavam mais sozinhos neste mundo, de mãos dadas, Menina e Coração seguiram pelo caminho de ladrilhos amarelos sob as sete cores do arco-iris. Já disse: para mim arco-iris vai ser sempre assim, separadinhos mas unidos pelo tracinho do meio, de mãos dadas, assim como a Menina e o Coração!


Pensamentinho de Cabeceira:

"Sim, eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer e me serenizar
Ah, eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria, uma casa vazia
Sem luz nem calor
Mas quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir, iluminar nosso amor"
(Zélia Duncan) 




domingo, 25 de dezembro de 2011

Feliz Natal

Sempre que chega o Natal, eu lembro deste lindo cordel que o Sr. Luiz Campos fez. É uma crítica belíssima ao "Papai Noel" que só aparece pros ricos... Já publiquei este cordel aqui e já recitei na faculdade. Não custa nada colocar aí de novo!
Feliz Natal, pessoas! Eu sumo, sumo, mas sempre volto! rs

Carta ao Papai Noel
Luiz Campos

Seu moço eu fui um garoto
Infeliz na minha infância
Que soube que fui criança
Mas pela boca dos ôto...
Só brinquei com gafanhoto
Que achava nos tabuleiro
Debaixo dos juazeiro
Com minhas vaca de osso
Essas catrevage, moço,
Que se arranja sem dinheiro.

Quando eu via um gurizim
Brincando de velocipe,
De caminhão e de jipe,
Bola, revólve ou carrim
Sentia dentro de mim
Desgosto que dava medo,
Ficava chupando o dedo
Chorando o resto do dia
Só pruque eu num pudia
Pegá naqueles brinquedo.

Mas preguntei certa vez
A uns fio dum dotô
Diga, fazendo um favô
Quem dá isso prá vocês?
Mim respondeu logo uns três
Isso aqui é os presente
Que a gente é inocente
Vai drumí às vezes nem nota
Aí Papai Noé bota
Perto do berço da gente.

Fiquei naquilo pensando
Inté o Natá chegá
E na Noite de Natá
Eu fui drumi me lembrando
Acordei, fiquei caçando,
Por onde eu tava deitado
Seu moço eu fui enganado
Que de presente o que tinha
Era de mijo uma pocinha
Que eu mesmo tinha botado.

Saí c'a bixiga preta
Caçando os amigo meu
Quando eles mostraram a eu
Caminhão, carro e carreta
Bola, revólver, corneta,
E trem elétrico, até
Boneca, máquina de pé,
Mas num brinquei, só fiz ver
E resolví escrever
Uma carta a Papai Noé.

“Papai Noé é pecado
Aos outros se matratá
Mas eu vou lê recramá
Um troço qui tá errado
Que aos fio do deputado
Você dá tanto carrin
Mas você é muito ruim
Que lá em casa num vai
Por certo num é meu pai
Qui num se lembra de mim.

Já tô certo que você
Só balança o povo seu
E um pobre que nem eu
Você vê, faz qui num vê
E se você vê, porque
Na minha casa num vem?
O rancho que a gente tem
É pequeno mas lhe cabe
Será que você num sabe
Qui pobre é gente também?

Você de roupa encarnada,
Colorida, Bonitinha,
Nunca reparou qui a minha
Já tá toda remendada
Seja mais meu camarada
Pr’eu num chamá-lo de ruim
Para o ano faça assim:
Dê menos aos fio dos rico
De cada um tire um tico
Traga um presente pra mim.


Meu endereço eu vou dá
De casa que eu moro nela
Moro naquela favela
Que você nunca foi lá
Mas quando você chegá
Qui avistá uma paioça
Cuberta cum lona grossa
E dois buracão bem grande
Uma porta veia de frande
Pode batê que é a nossa.





quarta-feira, 27 de julho de 2011

UM CORDEL DE PRESENTE DE ANIVERSÁRIO NÃO É PARA QUALQUER UMA!


E meu tratamento começou! Para me dar ânimo, ganhei da minha amiga Salete Maria o presente de aniversário mais lindo da minha vida inteirinha: um cordel-poema-oração! É emoção demais para esta velha garganta "desborboleteada", rsrs! Obrigada querida Salete! Amo você!
Emocionem-se comigo:

CORDEL PARA SAMMYRA ou
MAIS UMA DOSE DE AMOR!

Este cordel eu dedico
A ti, amada Sammyra,
Para quem reivindico
Que Deus esteja na mira
Dando-te muita saúde
Fazendo com que se mude
Doenças, dores e ira

Pois sinto ser tua alma
Das mais sutis e benditas
Abrigo de paz e calma
E de alegria infinita
Que a Força Superior
Dentre tantas que gerou
Botou entre as mais bonitas

Desejo que muita luz
Ilumine tua estrada
E o anjo que te conduz
Te siga em toda pisada
Seja lá onde estiver
Pois quem caminha com fé
Está bem acompanhada

Que invada todo o teu ser
Um sopro arrebatador
Que te possa bem fazer
Como bem faz o amor
E que todo o tratamento
Que fazes neste momento
Não te cause qualquer dor

Que tu tenhas a certeza
Do quanto Deus é contigo
Que uma chama acesa
Adentre por teu umbigo
E tome conta de ti
Te estimulando a sorrir
Qual quando estás comigo

Que a Energia Suprema
Te encha de emoção
Que este cordel-poema
Te invada o coração
Que um anjo querubim
Fale ao teu ouvido assim:
Menina, não temas não!



Que a Infinita Bondade
Te sirva de companhia
Que nossa imensa amizade
Nos coloque em sintonia
Que tudo seja suave
Pois nada existe de grave
Diante de nossa magia

Que a estrela mais linda
Que no céu possa haver
Te anime mais ainda
Do q'eu possa pretender
E que aquela conexão
Que não ocorreu em vão
Nos una mais, pra valer

E que tu sigas valente
Avante, com destemor
Crente que neste presente
Deus não te abandonou
Ele brindará contigo
- com iodo-radioativo!-
Mais uma dose de amor!

Salvador-Ba, julho de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Borboleta voou...

Este primeiro semestre de 2011 me trouxe surpresas e muito amadurecimento... Dentre as surpresas que me invadiram, uma delas foi um câncer na Tireóide! Sim, justamente esta glândula em forma de Borboleta situada na base do pescoço! Ironia do destino ou não, justo na Borboleta da garganta... rs! Acometida por um cansaço sem fim, fadiga nas pernas, sobrepeso sem explicação, mudanças bruscas de humor, cabelo caindo e unhas fracas, já vinha suspeitando de um hipotireoidismo, então procurei ajuda médica para confirmar. À princípio, a médica que me atendeu achou que fosse emocional, estresse, ansiedade, e sugeriu que tomasse um calmante natural. Contudo, diante de minha insistencia na hipótese de alguma disfunção tireoidiana, ela solicitou o exame de sangue e uma ultrassom do pescoço. Pois bem, fiz o exame de sangue e, pasmem!, as taxas estavam todas normais, nenhuma alteração nos TSH, T3, T4 e todos os outros Ts, rs! ainda bem que não me conformei e fui, ainda assim, fazer a ultrassom, que mostrou a presença de pequenos cistos e 2 nódulos também pequenos, sendo um no lobo direito e outro no lobo esquerdo. Fui a um otorrinolaringologista que, ao ver meu exame, disse que eu não tinha nada demais e que deveria tomar um medicamento tal e voltar ao seu consultorio com 20 dias que os nódulos iriam desaparecer. Voltei na médica que havia me atendido a principio que, munida dos meus exames, afirmou ser caso de cirurgia (Tireoidectomia). Confusa com as opiniões divergentes, mostrei o resultado a uma endocrinologista que disse ser muito comum o aparecimento destes nódulos, principalmente em mulheres a partir dos 30 anos e, como os meus eram pequenos não precisaria fazer outra coisa a não ser acompanhar o desenvolvimento deles. Segundo esta médica, eu deveria fazer ultrassom do pescoço a cada mês, e, caso os nódulos aumentassem de tamanho, deveria fazer uma punção para saber o porquê do desenvolvimento dos mesmos. Como, graças a Deus, teimosia e insistência são duas palavrinhas que suuuper combinam comigo, perguntei se não podia fazer logo estas punções, para me tranquilizar logo, o que ela acabou concordando e solicitando a punção. Fui conversar com outro médico endocrinologista que explicou ser, de fato, muito comum o aparecimento destes nódulos em mulheres de minha idade, que os meus nódulos eram bem pequenos e que geralmente estes nódulos não são malignos, mas que seria prudente fazer uma punção para confirmar. Fiz a punção e o resultado foi uma Tireoidite Linfocítica no lobo direito e "Achados compativeis com carcinoma papilífero da tireóide" no lobo esquerdo. a palavra carcinoma me tirou o chão! A gente nunca imagina que vai acontecer com a gente né? Mandei o resultado da biópsia para minha prima Dra Cecília Figueiredo que é endocrinologista em Fortaleza e ela agendou uma consulta com um cirurgião de cabeça e pescoço imediatamente. Vim até a capital, conheci o Dr. Luis Albano e me encantei com sua competência, simplicidade e didática ao me explicar acerca do meu problema. Realmente eu teria que fazer a Tireoidectomia e seria total. Mas explicou-me também que a cirurgia, apesar de ser com anestesia geral, era de pouco risco, rápida (cerca de 40, 50 minutos) e, correndo tudo bem, no dia seguinte eu já teria alta hospitalar. Preparei, naquele dia mesmo, toda a papelada e na semana seguinte retornei a Fortaleza para me operar. É... minha Borboletinha teria que voar... Graças a Deus e ao Dr. Albano, a cirurgia foi um sucesso! Realmente era um cancer, mas que estava alojado apenas na tireoide (foi feito o esvaziamento cervical e não deu metástase, graças aos céus). Ainda assim, este maravilhoso médico me incentivou a fazer uma aplicação de iodo (a IodoRadioterapia) para, como diz ele, blindar meu corpo de possíveis investidas, rs! E aqui estou em Fortaleza outra vez, fazendo os exames necessários para tomar esta aplicação de iodo radioterápico e vencer mais esta batalha! Alguém pode estar se perguntando o porquê de eu estar expondo minha intimidade aqui no blog... Relutei bastante em escrever sobre este assunto aqui, até porque é um assunto atual em minha vida e que ainda mexe muito com meu emocional, mas senti a necessidade de compartilhar esta experiência para que as pessoas, principalmente mulheres a partir dos 30 anos, procurem fazer exames da Tireóide (insistam no de sangue e na ultrassom para garantir) e, assim como eu, solucionar o problema a tempo, antes de maiores complicações! A partir de agora minha vida ganha novo sentido, não porque minha Borboletinha deu lugar à "Tireóide da Caixinha do Remédio" que terei que tomar todos os dias até, segundo Dr. Albano, eu morrer com 113 anos de idade, rs! mas porque foi neste momento de medo, ansiedade, luta e valentia que eu percebi o quanto eu sou forte (e às vezes bem fragil) e quem realmente são as pessoas com quem eu posso contar nesta vida! É fácil ser amigo, parente, família ou o que quer que seja, na teoria... o difícil é a teoria condizer com a prática e a minha Borboletinha voou para me libertar dos amigos e parentes teóricos e me fazer valorizar os que de fato são valorosos. Me fez reafirmar meu amor por alguns que já amava demais da conta, me fez descobrir lealdade, carinho, caridade e compreensão em quem eu jamais esperava e, como não podia deixar de ser, me fez decepcionar-me com as atitudes de outros, mas estes últimos para mim já são desimportantes! Um brinde à Vida! Um brinde ao Amor! Um brinde aos Amigos de Verdade! E Saúde! Muita Saúde para tod@s nós!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Para comemorar os 100 ANOS da minha querida cidade Juazeiro do Norte, nada melhor que nos deliciarmos com o cordel de Salete Maria, com a capinha ilustrada por esta que vos fala.
E viva minha cidade, até porque...

JUAZEIRO FAZ CEM ANOS,
E A LUTA CONTINUA!

Meu Juazeiro querido
- coração do Cariri! -
Nunca serás esquecido
Pois sinto falta de ti
E agora, nos teus cem anos,
Eu tava fazendo planos
De me encontrar por aí

Porém não estou podendo
- e ficarei na vontade! -
Com meu coração sofrendo
- bem roxinho de saudade! -
Mas te faço, com fervor,
U'a declaração de amor:
Ó benedita cidade!

Pois justo agora que estou
Em missão estudantil
Minha saúde falhou
E um probleminha surgiu
Mas isto é coisa da vida
Deus cura toda ferida
Que Ele não consentiu

E mesmo com tudo isso
Não poderia deixar
De honrar o compromisso
De te homenagear
Nesta data especial
- Teu centenário natal! -
Que todos vão celebrar

E o faço ao meu estilo
Nestas estrofes rimadas
Onde sem qualquer vacilo
Te chamo terra encantada
E registro com paixão
O que há sobre teu chão
Sem tentar esconder nada

Tuas dores e delícias
Aqui quero destacar
Teus pudores e malícias
Teu mal e teu bem-estar
Pois quem ama reconhece
- entre gemidos e preces -
O que é preciso mudar


Com a bênção do Patriarca
- e da Beata Maria! -
Pois sei que a rima é parca
Para celebrar teu dia:
Te desejo muita sorte
Meu Juazeiro do Norte
Terra de fé e euforia!

Eu que sou mais uma romeira
Que em teu solo aportou
Cheguei sem eira nem beira
E fui sentido o calor
De tua hospitalidade
- Ó majestosa cidade -
Viva o ser que te gerou!

Assim como outros tantos
Romeiros de Meu Padim
Entreguei-me a teus encantos
Num laço de amor sem fim
E edifiquei a morada
Nesta terra abençoada
Que tanto deu para mim

Deu-me fé e inspiração
Coragem e entusiasmo
Alegria e emoção
Disposição e orgasmo
E centenas de amizades
Além de oportunidades
Que faz meu ser ficar pasmo

Me deu colegas e amores
Adversários e amigos
Me deu espinhos e flores
Camaradas e inimigos
Conhecidos e chegados
Vizinhos e agregados
Nenhum dos quais esquecidos!

Gente que aprendi amar
Nas lides do dia a dia
- muitos contra quem lutar!-
Em prol da cidadania
Alguns seguem resolutos
Outros, vendidos, corruptos
Rumaram por outra via

Juazeiro, centenária!
- terra de labor e fé -
Tua festa é necessária
Porque teu povo te quer
Mas não há plena alegria
Sem que o pão de cada dia
Seja para quem quiser

Sem que haja transparência
Nos atos de governança
Sem que haja consciência
Em velho, moço e criança
Acerca de seus direitos
Quem vai sair satisfeito
No final dessa festança?

E sem trabalho e saúde
Educação e lazer
Sem que o costume mude
Das famílias no poder
Sem o fim do nepotismo
E do tal favoritismo
De quem a festa vai ser?

Sem respeito ao servidor
- que tem família também-
Mas doando, sim senhor,
O que o município tem
Para correligionários
Amigos e empresários
Esta festa é para quem?

A festa não é pra todos
Quando não se compartilha
E não passa de um engodo
Onde o poderoso brilha
É preciso a comunhão
Pois Padim Ciço Romão
Nos legou esta cartilha

Será possível um mendigo
Festejar necessidades?
E um sujeito oprimido
Festejar iniquidades?
Quem sente falta de pão
Vai fazer celebração
No festim de autoridades?

Juazeiro a tua festa
É no coração da gente
Do ser humano que presta
E leva a vida decente
Acreditando em melhora
Marchando avenida afora
Mudando nosso presente

Teu banquete é nossa luta
Em prol de nossos direitos
É no palco da disputa
Onde se faz o sujeito
Que constrói a sua história
Que entra para a memória
Com qualidade e defeito

Juazeiro, território
De gente boa e sincera
Povo de viver simplório
Cultivador da quimera
Tua história vai mudar
Neste sul do Ceará
Onde o PT faz miséria

Neste natalício teu
Onde muitos te festejam
Receba um carinho meu
Dentre tantos que te beijam
Sinta minha homenagem
Pois penso em tua paisagem
E meus olhos lacrimejam:

Juazeiro das lapinhas
Cultos e renovações
De bendito e ladainha
Cordéis e celebrações
De reisado e cantoria
Feiras e mercearias
Palco para multidões

Juazeiro das ações
De 'cumades' e 'madinhas'
Redes em conexões
Baião de dois e meisinha
Piqui e carne de charco
Fumo de rolo e tabaco
Mii e saca de farinha

Juazeiro dos forró
Artesanato e bordado
Pamonha e pão-de-ló
Bolo de puba e torrado
Panelas e candeeiro
Cabaças e zabumbeiro
Q'suco e din-din gelado


Juazeiro dos milagres
E ex-votos pendurados
Das comidas com vinagre
De carneiro e bode assado
Dos terreiros de umbanda
Das barracas e quitandas
Dos namoros arrochados

Juazeiro dos empresários
De ambições nacionais
Do atendimento precário
Nos postos e hospitais
Das eleições baixarias
Dos josés e das marias
Que as vezes formam casais

Juazeiro da juventude
Dos véi e da criançada
Juazeiro de quem se ilude
E das pessoas letradas
Juazeiro das fuxiqueiras
De gente honesta e ordeira
E também das trapalhadas

Juazeiro dos carros novos
E dos ônibus ruins
De tribos, tabas e povos
Capetas e querubins
Juazeiro de toda sorte
De muita vida e de morte
Juazeiro de Meu Padim

Juazeiro véi das bodegas
Indústria e hotelaria
Dos cabarés e dos bregas
Restaurante e padaria
Juazeiro grande e guerreiro
Apruma teu paradeiro
Pra viver em harmonia

Juazeiro palco de igrejas
Do Horto e das estações
E das mentes malfazejas
Escondidas nos porões
Juazeiro cheio de sol
Terra de bom futebol
Celeiro de tradições


Juazeiro de empreendedores
Patrões e desempregados
Juazeiro dos 'sem valores'
E de 'homens respeitados'
De mulheres invisíveis
Juazeiro das meretrizes
Das bichas e deputados

Juazeiro dos muquifos
E das boates da moda
Dos tocadores de pifos
E das cirandas de roda
Juazeiro da violência
Da droga e da penitência
Juazeiro casta e foda

Juazeiro das faculdades
E de muito analfabeto
De tantas iniquidades
E vários gestos concretos
De artistas populares
De civis e militares
De barões e de sem tetos

Juazeiro dos edifícios
De barracos e favelas
De procissão e comícios
De caridade e mazelas
Juazeiro de coronéis
De santos e bacharéis
De rapariga e donzela

Juazeiro de moralismos
E de pessoas abertas
De pseudos-esquerdismos
E muitos falsos profetas
Juazeiro de tantos pais
De neo-homossexuais
De trajetórias incertas

Juazeiro de ruas sujas
E carros top de linha
De assombrosas corujas
E galos que vencem rinha
Juazeiro do povo gótico
Tens um trânsito caótico
E crimes de saidinha

Juazeiro de gestos nobres
E de aviltantes condutas
De bastante gente pobre
E uns ricos filhos da puta
De políticos corruptos
E cidadãos impolutos
Que a mídia as vezes oculta


Juazeiro de confusão
E de solidariedade
Lugar de perseguição
Mas também de honestidade
Juazeiro de muitas caras
De paranóias e taras
De equilíbrio e verdade

Juazeiro de muita escola
E pouca oportunidade
De tantos pedindo esmola
Pelas ruas da cidade
Juazeiro da covardia
Mas também da utopia
De gente de toda idade

Juazeiro das vaquejadas
De gente alegre e feliz
De lojas mal enfeitadas
De lousas velhas de giz
Juazeiros de mil toadas
Cidade mal conservada
Mas que tem linda matriz!

Juazeiro das carroças
E motos excepcionais
Dos bares e das palhoças
Dos acidentes fatais
Juazeiro da estudantada
Das fardas malacabadas
Que tanta vergonha faz

Juazeiro das atitudes
De gente bem antenada
Também das ilicitudes
Da classe considerada
Juazeiro da imprensa
Que precisa pedir bença
Ao dono da empreitada


Juazeiro dos flanelinhas
Que trabalham nos sinais
Juazeiro das sapatinhas
Que querem viver em paz
Juazeiro da mulherada
Estuprada e assassinada
Por homens, filhos e pais

Juazeiro de sindicatos
E de entidades secretas
Juazeiro de artefatos
De carroça e bicicletas
Juazeiro de fé medonha
De crack, cola e maconha
E de versões incompletas
Juazeiro de atores
E atletas singulares
Juazeiro de cantores
E pedreiros exemplares
Juazeiro de operários
De muitos comerciários
E muitos donos de bares

Juazeiro de chapeados
De dondoca e enfermeira
Juazeiro de advogados
De beato e rezadeira
Juazeiro de servidores
De garis e de doutores
De ferreiro e cozinheiras

Juazeiro de bairros novos
E de velhos lugarejos
Juazeiro de pão com ovos
E de pizza quatro queijos
Juazeiro de miseráveis
E riquezas deploráveis
Frutos de tapas e beijos

Juazeiro de toda gente
De identidades várias
Juazeiro de resistentes
De penitentes e párias
Juazeiro véi da geral
No conflito social
Ralé não é mais otária


Juazeiro que envelhece
E que também se renova
Cidade que incha e cresce
E que se encontra à prova
De bala e de inteligência
Clamando por competência
Para não descer à cova

Juazeiro eu desejo
Que uma luz lá do céu
Desça feito relampejo
E te cubra como um véu
Carregado de progresso
Empilhado de sucesso
Repleto de leite e mel

Eu te proclamo em cordel
Neste humilde versejar
Rogando a Deus do céu
Q' Ele te faça brilhar
Dentre as urbes do Brasil
Concedendo mais de mil
Anos pra comemorar

Pois me lembro que és solo
Onde nasceu minha avó
Cujo Padim pôs no colo
- vestidinha de filó -
E a ela deu um nome
Naquele tempo de fome
Q' ind' hoje me causa dó


És também terra sagrada
De tanta gente que adoro
Torrão de pessoa amada
Berço de por quem eu choro
Juazeiro sedutora
Fascinante, acolhedora
Pra que se cuide, te imploro

Eu aprendi a te amar
E admirar tua história
Desde quando fui morar
-pra minha honra e glória-
No teu solo abençoado
Onde tudo é encantado
E guardado na memória

Tua cultura diversa
Tua gente nas calçadas
Tua história controversa
Tuas missas tão lotadas
Teu povo trabalhador
Que vai seguindo um andor
Com reza quase chorada

Te chamo Cidade Altiva
Pois és Meca do Sertão
És a terra prometida
Pro romeiro, nosso irmão
Juazeiro santuária!
Reluzente, candelária
Terra de muita oração!

Te agradeço imensamente
Pelo tempo em que vivi
No seio da tua gente
E por tudo que senti
Desde as lutas sociais
Aos encontros culturais
Dos quais jamais esqueci

Te sou grata pelos dias
De bonança e tempestade
Quando nas periferias
Me cercava de amizades
Dentre tantas passeatas
Lutando contra as mamatas
Dos políticos da cidade


Sei que nos dias presentes
Os carcarás do poder
Além de incompetentes
E de tanto mal fazer
Estão acabando tudo
Terreno, praça e estudo
Saúde, paz e lazer


Mas mesmo estando distante
Fora do teu habitat
Me pergunto neste instante:
Quem agora vai ousar
Depois deste centenário
Fazer o povo de otário
Para a eleição ganhar?

Meu Juazeiro querido
Tu comemoras cem anos
Mas teu povo, abatido,
Sofre muitos desenganos
Sem rumo e educação
Nesta administração
Deste governo tirano

Do lugar onde me encontro,
Fico triste ao saber
Que chegaste a este ponto
Num governo do PT
Onde tudo é um horror
E o povo trabalhador
Apanha sem merecer

Mas algo me faz feliz
Apesar do que acontece
Pois como o ditado diz:
''Tudo que é pequeno cresce''
E a consciência do povo
-que é um bem valioso -
Cada vez mais aparece

Nas greves dos professores
E de outras categorias
Médicos e operadores
De trânsito e rodovias
E na classe estudantil
Que sempre bem te serviu
Desde os mais remotos dias

Receba esta missiva
Que te escrevi com amor
Espero que ela sirva
Pra se somar ao clamor
Do povo cheio de fé
Que fez de ti quem tu é
Conforme o Padre ensinou


Juazeiro, Centenária,
Terra de fé e oração,
Minha veia literária
Te deseja EDUCAÇÃO!
Trabalho, paz e SAÚDE!
Para que um dia mude
Teus governos de opressão!

Assim termino meu verso
Afirmando que te amo
Uma mensagem endereço
Para fulano e sicrano:
Respeite o povo primeiro
- pois nativo ou forasteiro-
Todos somos conterrâneos!

Pois essa terra, amigo,
É tão nossa quanto sua
E por isto eu lhe digo
Para que ela evolua
O povo fará seus planos:
Juazeiro faz cem anos!
E a luta continua!